Colecionador do Alvão tem mais de 480 troféus de gado bovino em casa


António Fernandes, conhecido como “Tony da Lixa do Alvão” por inicialmente o seu nome de batismo ter sido Anthony, tem uma admitida paixão por gado bovino com o qual angariou, ao longo de vários anos de concursos, mais de 480 troféus. Na sua coleção tem ainda diversos apetrechos utilizados na antiga agricultura.

Nascido e criado na aldeia da Lixa do Alvão, na freguesia do Alvão, do concelho de Vila Pouca de Aguiar, António Fernandes, de 68 anos, tem uma paixão pelos bovinos que surgiu por ter começado a trabalhar na agricultura em casa do pai. “Estive em casa dele até aos 19 anos, tive sempre metido nisso [na agricultura]. Já era eu que fazia praticamente a lavoura toda com as vacas, naquela quadra não havia tratores, e era com as vacas que fazíamos a agricultura”, explica António Fernandes. Depois de se casar, começou também a trabalhar na área com a esposa.

“O forte foi em 1990 onde comecei com vacas taurinas, cheguei a ter 130. E houve uma altura em que ordenhei 86 vacas, diariamente, que davam 2.500 litros de leite ao dia. Vinha cá o carro dia sim, dia não, e descarregava entre 5.100 e outras vezes 4.900 litros. E foi aí que juntei alguma coisa do que tenho aqui”.

Em 1996 houve um incêndio em todos os pavilhões do gado, onde perdeu também dois tratores e uma carrinha, que Tony da Lixa do Alvão lamenta, “fiquei sem nadinha”. No rescaldo da situação percebeu que tinham sobrevivido algumas vacas e a ordenha, que dariam para se “endireitar” e começar de novo. Manteve o negócio da produção de leite até ao ano de 2003 onde houve um novo revés e, por motivos de saúde familiares, vendeu todas as vacas “por desgosto e foi a maior asneira que fiz”, confessa António Fernandes.

 

Mais de 480 troféus angariados

Retrocedendo ao ano de 2000, a paixão pelas vacas voltou a falar mais alto e levou o aguiarense a ingressar nos concursos de gado bovino com a raça maronesa, mas, salienta o agricultor, “nem todas dão, se calhar em 100 saem duas ou três boas”. Com uma junta de vacas começou a participar nos concursos. Foi evoluindo até ter 12 elementos de gado bovino, “levava sempre duas carrinhas carregadas” para as competições, relembra o agricultor.

Durante cinco anos, participou em centenas de concursos, tendo angariado mais de 480 troféus e até já ofereceu alguns por não ter mais espaço para os expor. “O meu irmão já levou alguns para a América, o meu filho também”.

Tony da Lixa do Alvão afirma que, nesta altura, onde havia concursos, lá estava a marcar presença, e é também por essa razão que diz ser conhecido em muitas localidades, como Santarém. Concorreu maioritariamente a nível nacional e foi ainda convidado para um concurso em Espanha.

Recorda-se de, em 2001, ter comprado duas vacas por 11 mil euros e com elas “ganhávamos os primeiros lugares todos, onde elas entravam, ganhavam sempre, ou em conjunto ou isoladas”. Também marcava presença nas festas da vila e “cheguei a trazer aos 8 [prémios] de cada vez”.

O treino do gado não era fácil, disse António Fernandes. “Para as ensinar dão muito trabalho, para pegar nelas, porque estão aos arrombos, vão contra as paredes, e uma pessoa tinha que ter força”.

A nível de preparação, o concorrente explicou que, para levar os 12 animais às competições, “levava-me das 9 da manhã até às 5 da tarde, a mim e à minha esposa, a dar-lhes banho, com champôs e água das mangueiras, sempre com escovas próprias, e também lavar aqueles cornos para ficarem branquinhos”. Um outro truque era utilizar “azeite puro” colocado no pêlo. “Gastávamos sempre litros de azeite cada vez íamos [aos concursos] para o pêlo ficar reluzente”.

Também a alimentação ao longo de todo o ano era tida em conta e até o alinhamento do jugo era importante.  

No ano de 2005 acabou por vender as vacas maronesas e fez uma pausa nos concursos até 2019, quando voltou o gosto pelas competições.

 

O regresso aos concursos

A vida do aguiarense volta a cruzar-se com o gado bovino em 2019 quando começou a comprar vacas maronesas, ou a “tirar da mãe assim pequeninas”. Ainda participou em concursos durante cerca de um ano até que a pandemia da COVID-19 chegou a solo nacional. “Não havia feiras, não havia nada, até que depois acabei por as vender também, porque as vacas dos concursos dão muita despesa”.

Em 2024, por saudades, retomou a sua paixão pelas competições e a “aumentar o efetivo para matar o vício dos concursos”. “Estou a renascer, a ver se saem algumas boas”, uma vez que “gostava de ir aos meus terrenos e de ver alguma coisa, até que comecei com duas ou três e agora neste momento tenho uma dúzia”. O colecionador, que agora faz criação, acredita que tem três vitelas de 18 meses que darão boas participantes.

António Fernandes explica ainda que este regresso é uma forma de ver se “passo melhor a doença porque até estava num lar”, referindo-se a um problema de saúde que surgiu há cerca “de três ou quatro anos”. Reforça ainda ao dizer que os animais e os concursos é que lhe trazem alegria.

 

Produção de carne para consumo

Uma outra área em que António Fernandes se envolveu foi a da produção de carne para consumo, durante um ano e meio, quando adquiriu vitelas para este propósito, corria o ano de 2014. “Foram 25 vitelas taurinas e charolesas que comprei para engorda”, explica Tony da Lixa do Alvão, que as manteve até as vender para o matadouro.

 

“Houve um ano que se deu para uma aventura”

O agricultor da Lixa do Alvão relembra ainda uma altura da sua vida, em 1990, paralelamente à produção de leite, em que enveredou pelo cultivo da batata devido à conjuntura que se vivia. “As batatas estrangeiras, no início, vinham muito caras e acho que eram a 800 escudos, naquela quadra de 1990”.

Conta que chegou até si um conhecido de um amigo com “600 sacos de batatas de 50 quilos, agora só há de 25, mas antigamente eram de 50 quilos” começa por contextualizar António Fernandes. Acabou por comprar a quantidade total e “levou uma semana a preparar os lameiros com dois tratores, eu e um empregado, depois lá olhámos por elas e renderam muito”, recorda.

Estava com receio do arranque, mas “calhou tão bem que pus o dia de arranque numa segunda e tivemos arranque segunda, terça, quarta, quinta e sexta. Na segunda vieram 55 pessoas e na sexta acabámos com 35, e vendi as batatas todas”. O agricultor descreve que foram “18 vagões, cada vagão são 10.000 quilos, e vendi-as todas, naquelas balanças que estão ali para pesar as batatas na terra”.

Também nesta fase, produzia milho para silagem para alimentar as vacas taurinas de produção de leite.

 

“É uma paixão ter apeiros, varas, campainhas, tudo bem estimado”

É com esta história de vida pela agricultura e pelo gado bovino que António Fernandes vai colecionando ferramentas utilizadas na sua lavoura ao longo dos anos, desde que se casou, e utensílios utilizados nos concursos. Algumas das peças também lhe foram oferecidas ou adquiridas.

É com orgulho que descreve parte da sua coleção em números: “100 varas, algumas com mais de 100 anos; seis pares de jugos; seis apeiros; oito jogadas de sogas; um arreio de cavalo ainda por estrear; e nove pares de campainhas”.

Quanto às varas, Tony da Lixa do Alvão salienta que fazem a diferença em quem as usa. “Tudo olha para as pessoas e para as varas”, explica. Ainda sobre este utensílio, revela que valem muito, uma vez que há pouco tempo recebeu uma oferta em que lhe pagavam 60 euros por vara e queriam 50, “mas como eu tenho paixão por isto, por dinheiro nenhum as vendo”, remata o colecionador.

O aguiarense acredita que a sua coleção perdurará uma vez que tem um neto “que acho que vai tomar conta disto”.

Quanto à sua coleção de utensílios e aos diversos troféus, admite que já pensou “fazer um anexo para pôr tudo”.

 

 

Texto e fotos: Ângela Vermelho



08/04/2026

Sociedade


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