Criador em Vila Pouca de Aguiar preserva raça autóctone do burro mirandês
Mário Pinto, de 32 anos, é criador de burro mirandês, uma raça autóctone que esteve em vias de extinção. Natural de Outeiro, na freguesia de Telões, no concelho de Vila Pouca de Aguiar, dedica-se à criação de burros mirandeses, mantendo nove exemplares da raça. Uma paixão que começou na infância e foi herdada do avô.
A paixão pelos burros começou na
infância, quando a família utilizava animais cruzados para as lides do campo. O
contacto com a raça mirandesa surgiu mais tarde, através de uma associação do Burro
Mirandês. “Em contacto com um familiar do
distrito de Bragança, surgiu falarmos do burro mirandês. Entrámos em contacto
com a associação e, num almoço de família, pesquisámos na internet sobre esta
raça”, recorda. Em 2008, a família entrou em contacto com a associação da
raça e adquiriu a primeira burra mirandesa.
PAIXÃO DE INFÂNCIA
“Esta paixão pelos burros, pela raça do burro mirandês já vem desde
novo. Na nossa família, o meu avô sempre teve uma burra para trabalhar, para
fazer o trabalho do campo”, relembra.
Durante muitos anos, a família
manteve apenas animais cruzados, usados sobretudo para pequenas lides
agrícolas. “Sempre me lembro de termos
uma burra, tínhamos na altura só um exemplar que era para nos ajudar a fazer
alguns trabalhos do campo, que não dão para fazer com máquinas”, explica.
ASSUMIR O PROJETO E AUMENTAR O EFETIVO
Apesar de ter chegado a manter
quatro ou cinco animais, problemas de saúde do avô e do pai levaram à redução
do efetivo. A partir de 2018, Mário André assumiu o projeto. “Neste momento consigo ter nove burros
mirandeses. Tenho ainda três ou quatro dos cruzados, mas a minha meta é ter, pelo
menos, um macho e 10 a 11 fêmeas, o máximo para termos produção”, afirma
Mário Pinto, bombeiro de profissão.
UMA RAÇA AUTÓCTONE EM RISCO
O criador sublinha que o burro
mirandês esteve em risco devido ao envelhecimento da população rural. “A nossa população está cada vez mais
envelhecida e as pessoas iam usando os burros para tratar das lides do campo.
Mas com o passar dos anos, as pessoas deixam de ter esta atividade. Foi-se
acabando aqui um bocadinho com o burro mirandês”.
TEMPERAMENTO DÓCIL: “TÊM O NOME DE BURRO, MAS SÃO MUITO
INTELIGENTES”
Conhecido pelo temperamento
dócil, o burro mirandês destaca-se também pela inteligência. “É um animal muito dócil, basicamente fazemos
o que queremos deles, consegue-se tudo. Têm o nome de burro, mas são muito
inteligentes”, garante, acrescentando que o comportamento depende muito da
educação dada desde cedo. “Os animais são
consoante o dono permite”.
ALIMENTAÇÃO E
BEM-ESTAR ANIMAL
A alimentação dos animais é feita de forma controlada,
respeitando as necessidades específicas da espécie. Durante o dia, os burros
permanecem no lameiro, em regime de pastoreio, e à noite recolhem aos
estábulos, onde têm sempre acesso a feno, palha e água. O criador alerta que os
burros não devem alimentar-se apenas de erva verde, sendo a forragem seca
essencial para a sua saúde digestiva.
NOMES PRÓPRIOS E
ASSISTÊNCIA NOS PARTOS
Todos os animais têm nome
próprio. O macho reprodutor chama-se Rio, enquanto as fêmeas incluem Joaninha,
Estrelinha, Sopa, Preta, Uva e Ortiga. O mais recente nascimento, Valente,
exigiu intervenção humana. “Este último
ajudámos eu e o meu pai a fazer um parto”, relata, explicando que contou
com o apoio remoto da Associação do Burro Mirandês e de um veterinário através
de videochamada.
“É sempre bom a gente ajudar, porque é um ser vivo. É mais uma vida que
estamos ali a ajudar”, diz, destacando os cuidados necessários após o
nascimento.
APOIO ASSOCIATIVO E EXIGÊNCIAS DA CRIAÇÃO
O acompanhamento da Associação do
Burro Mirandês, sediada em Miranda do Douro, é regular. “Em três ou quatro meses fazem uma visita e vemos ao nível de parasitas
e dos dentes”, explica, salientando a importância da saúde dentária.
UMA HOMENAGEM EM FORMA DE LEGADO
Atualmente, os burros já não são
usados como força de trabalho, servindo sobretudo para limpeza dos terrenos e
convívio familiar. “É uma forma de
distração para ele e para mim nas horas vagas”, refere, falando do pai já
aposentado.
Mais do que um projeto pecuário,
a criação dos burros mirandeses assume um valor simbólico. “É uma espécie de homenagem ao meu avô e de seguir o legado que ele
deixou”.
A raça distingue-se pela pelagem
castanha, focinho e ventre brancos, porte robusto e pelas orelhas com pelos
longos, conhecidas localmente como “campainhas”,
características do burro do Planalto Mirandês.
A criação do Burro de Miranda,
raça autóctone portuguesa, é promovida pela Associação para o Estudo e Proteção
do Gado Asinino (AEPGA), fundada em 2001 para proteger e valorizar este
património, com o apoio técnico e centros de acolhimento. Segundo a AEPGA, a
criação exige identificação oficial (DIE), cuidados sanitários, cerca de 0,25
hectares de pasto por animal e apoio de veterinários e ferradores.
Sara Esteves e Ângela Vermelho
Fotos: Ângela Vermelho
17/02/2026
Sociedade
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